Estrombo entrevista o DJ Maurício Lopes

O DJ Maurício Lopes conversou com o Estrombo a respeito de seus 19 anos de carreira e trouxe valiosas informações sobe a cena de música eletrônica no estado do Rio de Janeiro. Maurício é um dos DJs de maior visibilidade da cena underground carioca e uma referência do segmento techno. É residente das festas “Fosfolopes” na Fosfobox e “New Disco” na Pacha de Búzios. Publicitário, começou a ter contato com a música eletrônica através do programa de rádio “Novas Tendências” apresentado pelo DJ José Roberto Mahr. Trabalhou durante anos como vendedor na loja de discos World Music em Copacabana, onde começou a comprar seus primeiros discos de vinil. Autodidata, contou com o apoio dos amigos, entre eles o DJ Felipe Venâncio que emprestou a própria case para sua primeira apresentação profissional na boite Kitschnet em 1992.
Em entrevista o DJ falou da necessidade de adaptação ao CDJ, equipamento que tem substituído a pick-up e os discos de vinil, e que hoje é utilizado pela maioria dos DJs em suas apresentações. Para o DJ o declínio da discotecagem em vinil deveu-se a dificuldade de importação e ao crescimento da produção digital. Maurício contou as experiências negativas que teve com as agências responsáveis por administrar a carreira de DJs: “Eu acho que a agência não estava conhecendo o meu trabalho o suficiente para me vender”. Ele apontou os selos e lojas digitais como plataformas essenciais para o circuito de música eletrônica hoje, e destacou o importante trabalho dos selos cariocas Tropical Beats e Molotov 21. Para Maurício a venda de música digital não deve ser pensada como fonte de renda para os DJs, mas sim como uma forma de alcançar visibilidade.
Nessa conversa ficou claro que em face da não-regulamentação da profissão do DJ, o mercado é caracterizado pela informalidade com contratos fechados via e-mail e em acordos verbais. Ainda assim o DJ é contra a regulamentação. “Para mim é um mercado informal que funciona”. Ele criticou as propostas de formalização que exigiam do DJ um diploma, e apontou que o interesse em formar um sindicato consiste em “ganhar uma grana em cima do trabalho do DJ”.
O DJ reconheceu o mailing list e a página no Facebook como as principais ferramentas de divulgação de seu trabalho, além de se fazer presente em determinados espaços e eventos, se fazer visível e ampliara rede de contatos. As lojas de equipamentos para DJs eram espaços de sociabilidade nos quais as pessoas envolvidas com a cena se encontrava, as vezes casualmente. Mas hoje com as facilidades da venda pela internet esse espaço desapareceu.
Maurício falou da dificuldade que um DJ novato enfrenta ao tentar se inserir no mercado hoje. “Hoje é bem mais difícil. Comecei numa época boa, quando tudo estava começando (…) Hoje tem muito mais DJs, muitos têm que produzir o próprio evento para conseguirem tocar. Tudo está mais difícil, inclusive em termos de cachê. (…) O mercado é disputado porque existem poucas casas.” Ele também aponta que muitos clubes tradicionais não estariam mais investindo em equipamentos, como é o caso do “Dama de Ferro”, por exemplo.
Quando questionado a respeito do uso de políticas públicas o DJ Maurício Lopes falou da dificuldade que o a música eletrônica enfrenta para conseguir financiamento público devido a publicidade negativa que associou esse gênero musical ao consumo de drogas e ao barulho, citando a pista eletrônica no Reveillon de Ipanema que foi vetado a pedido dos moradores. “É difícil ter apoio da prefeitura. Não tem como não comparar. Em São Paulo a prefeitura apóia as paradas gays, os eventos de música eletrônica, veja a Virada Cultural: a programação de música eletrônica é enorme, possui várias pistas. Aqui no Rio tivemos a pista eletrônica no Reveillon de Ipanema que foi um sucesso. Mas aí vem esse discurso que a música eletrônica envolve drogas. Um discurso cheio de preconceitos, pois ta cheio de eventos de rock outros gêneros”.

Abaixo você vai ler um resumo da entrevista concedida por ele:

Atualmente a maioria dos DJs abandonou o vinil e passou a apresentar seus sets em CDJs. Você foi resistente a essa mudança?

“Bastante. Eu era bem chato.Só queria tocar em vinil. Mas começou a ficar muito difícil importar discos. Ficou muito caro e a alfândega também ficou muito chata. Estava parando vários pedidos. Rolava multa, demorava de chegar (…) E ao mesmo tempo, a produção digital cresceu muito. Antigamente tinha muita coisa que só saía em vinil. Isso depois mudou”.

A relação se inverteu?

“Sim, tinham coisas que só saía em digital e você não encontrava em vinil. Então em 2007 eu parei de investir em vinil. Para mim foi um processo gradual. Comecei tocando algumas produções que não tinha em vinil. Mas quando vi que estava mais fácil conseguir repertório em MP3, eu decidi abandonar o formato”.

É diferente tocar com vinil e tocar com CD?

“Quando larguei o vinil eu já estava bem seguro com o CDJ, estava bem a vontade. Mas a pegada do CDJ é diferente. Tanto que eu fui pegar o vinil de brincadeira esses dias e vi que já havia perdido a manha. Se eu fosse chamado hoje para tocar vinil, teria que dar uma praticada”.

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